segunda-feira, outubro 31, 2005

DISCURSO DE ABERTURA - XXV CONVENÇÃO INTERNACIONAL DO ELOS INTERNACIONAL DA COMUNIDADE LUSÍADA



Exmª CE Maria Isabel Fernandes Dias,

DD. Presidente do Elos Clube de Tavira;


Exmº Sr. José Macário Correia,

DD. Presidente da Câmara Municipal de Tavira;


Exmº CE Dr. Alcindo Augusto Costa,

M.D. Vice-Presidente do Elos Internacional;


Exmº CE José Luís de Campos,

M.D. Vice-Presidente do Elos Internacional para a Europa;


Exmº CE Miguel Contani

M.D. Vice-Presidente Internacional para a América do Sul


Exmª CE Dina Lapa de Campos,

DD. Governadora do DE Sul do Elos Internacional


Caríssimos CCEE Organizadores desta Convenção:

Luís Horta, Isabel Dias, Gabriela Mendonça, Lourdes Drago, Filomena Andrade, Vitor Teixeira Marques, Leonildo Santos;


Nobres Companheiros Convencionais, do Brasil, de Portugal, da Ásia e da África,


Senhoras e Senhores,


Sob a proteção de Deus, declaramos instalada a XXV Convenção do Elos Internacional da Comunidade Lusíada, fazendo nossa esta citação do saudoso Eduardo Dias Coelho, idealizador do Movimento Elista:


“Senhor,

Estamos aqui reunidos na condição de herdeiros espirituais dos homens das sete partidas, daqueles que pregaram em todos os recantos da terra, a fé, a esperança, a caridade e a paz...”

Agradecendo a todos, pela gentil presença, iniciamos citando uma quadra de Medeiros e Albuquerque:

Eu sei, Senhor, que não mereço nada,

mas ponho em tuas mãos, humildemente,

meu coração que sofre. E, resignada,

minha alma aguarda, confiante e crente.”


Senhoras e Senhores,

O tema desta Convenção ELISMO – PONTE DE ESPERANÇA E AFIRMAÇÃO DE HUMANISMO NO ESPAÇO LUSÍADA nos remete ao início de uma jornada que teve seu ponto de partida, com o surgimento do ELISMO, em 8 de agosto de 1959, embora sua gênese tenha raízes profundas que permaneceram latentes por centenas de anos.

Desde os primórdios, a comunicação, em suas diversas formas, tem sido uma ponte de contato entre os seres humanos, sendo a língua a maior ponte para tal finalidade. Atualmente, somente no Brasil já são 180 000 000 de almas comunicando-se em língua portuguesa, num raio de 8 516 037 km2, pois do Oiapoque ao Chuí fala-se português.

O ELISMO está para nós, assim como o HUMANISMO estava para os pensadores italianos do século XIV.

A respeito do HUMANISMO, disse Jânio Quadros no seu “CURSO PRÁTICO DA LÍNGUA PORTUGUESA E SUA LITERATURA” v. V, p. 49:

Petrarca com as Rimas e Bocaccio com o Decameron, influenciaram, sobremodo, a cultura ocidental.”

Os acontecimentos políticos que se verificaram em Portugal após a morte de D. Fernando (1383), muito contribuíram para a renovação da cultura lusitana, porque assume o trono o Mestre de Avis que, com o nome de D. João I, procura apoiar todos os movimentos culturais de Portugal. Ele próprio ofereceu um clima de exuberantes possibilidades àqueles que se dedicavam às letras. Escreveu o Livro da Montaria, como que querendo dar exemplo de seu carinho para com a cultura do povo. A morte do rei não trouxe solução de continuidade, porque seu filho, D. Duarte, que assumiu o trono, em 1433, continuou incentivando os artistas e literatos. A nomeação de Fernão Lopes para o cargo de Guarda-Mor da Torre do Tombo confirma o seu desejo de bem servir à cultura da gente portuguesa.

Inicia-se, então, a humanização da cultura com aquela mesma preocupação européia da valorização do homem como indivíduo e como coletividade.

Os grandes descobrimentos e as conseqüentes conquistas ultramarinas contribuem para aumentar, cada vez mais, a aspiração já latente no espírito dos intelectuais da época. Tomados por um sentimento de realismo, a poesia, as crônicas e o teatro se laicizam e daí considerarem o homem não apenas como imagem e semelhança de Deus, mas como um membro, um participante ativo e passivo de um mundo material.”

Estribados nesses conceitos, os “Heróis do Mar” transformaram os oceanos em pontes de ligação para dar “mundos novos ao mundo”, e, desde então, a participação do homem tem sido uma ponte imutável. Com os seus anseios, com a sua vontade de liberdade, com a sua coragem, com a sua força de expressão, o homem tem rompido fronteiras, unindo a poesia, a arte erudita com a arte popular, a serviço da cultura lusíada, numa compreensão mútua e no respeito à dignidade humana.

Nesse clima de euforia “os homens das sete partidas”, os desbravadores lusitanos, entre outras Pátrias, descobrem o Brasil. Encontrando na nova terra um porto seguro para suas aspirações, implantam o HUMANISMO LUSÍADA e, sob o signo da cruz, surge uma nova era e uma nova raça.

Com a descoberta do Brasil, o espaço lusíada se alarga, em 8 516 037 km2. E, com a introdução da língua portuguesa e da fé cristã, o HUMANISMO consolida-se, fincando raízes em terreno fértil para produzir bons frutos.

Cinco séculos se passaram e hoje, como parte integrante dessa nova raça, ousamos descrever a nosso modo, como tudo deve ter acontecido:

Nove de março de mil e quinhentos,

formou Portugal grande expedição:

treze vasos levando mantimentos,

um grande alarido e bastante ovação;

embarcações revezam movimentos,

físicos, médicos, um tabelião,

gente escolhida: um frei e um bacharel,

da confiança do bom rei D. Manuel.



Com oito missionários franciscanos,

no comando, Frei Henrique de Coimbra,

um vigário, alguns padres lusitanos,

um piloto com material que timbra

as cartas referentes aos oceanos,

pra lazer, só as pedrinhas de Ximbra;

Pero Vaz de Caminha, o escrivão,

um erudito da navegação.


Caravelas, navios embandeirados

saíram de Alcáçova até Belém,

homens fortes, valentes, preparados

para a fama e vitórias mais além:

enfrentar mares nunca navegados,

aventura que a Portugal convém,

disse El-rei D. Manuel, o Venturoso,

ao Cabral, um fidalgo corajoso.


Depois da missa e do sermão do bispo,

entrega o rei, a bandeira a Cabral,

o símbolo da fé, a Cruz de Cristo,

um escudo contra o frio, temporal

e contra maremoto nunca visto...

parte a frota, deixando Portugal,

singrando o Tejo em direção ao sul,

valentes da nobreza, sangue azul.


Nas Canárias pairava a calmaria,

toda a esquadra deteve-se a rezar

belos hinos de louvores à Maria

e depois prosseguiu por alto-mar.

Sinal de vida: uma ave aparecia

de manso, como forma de saudar.

Terra à vista!” Era vinte e dois de abril:

Céu e mar! Terra virgem! É Brasil!


Avistaram ao longe, os navegantes,

um relevo que chamaram Pascoal,

pernoitando nas águas espumantes

perceberam selvagens no local,

os índios do Brasil, os habitantes

da terra descoberta por Cabral,

encontrando uns ilhéus, Porto Seguro,

ancorou muito firme o palinuro.


Domingo, vinte e seis do mês de abril

armou-se num ilhéu um tosco altar,

primeira missa em terras do Brasil,

o nobre capitão mandou rezar

e repetindo o feito tão gentil

a um de maio, outra missa, outro altar...

E a carta bem escrita por Caminha

narrava ao Rei tudo o que a terra tinha:


Ó meu mui amado e querido Rei,

esta terra descoberta é muito boa,

gente avermelhada, parda e sem lei

tem cabelos tosquiados, sem coroa,

anda nua, sem vergonha, eu notei

nas cabeças, penas de ave que voa,

beiços de baixo, longos e furados,

com fusos de algodão atravessados.”.


Da mata virgem nasceu o Brasil,

agasalhado pelo céu azul,

nasceu valente, forte e varonil,

onde se vê o Cruzeiro do Sul,

hospitaleiro, nunca foi hostil,

acolhe todos com amor taful:

o branco, o negro escravo e o amarelo

miscigenam o índio com anelo.


Ó Brasil! Nestes teus quinhentos anos,

quanta coisa positiva a contar:

Castro Alves, tantos poetas baianos...

Vila Rica, ouro e prata a rebrilhar!

Rei Pelé, carnaval todos os anos;

Amazonas, São Paulo a trabalhar;

Brasília, grande orgulho da Nação;

Elos Clube, forte laço de união!


Santos, terra de Brás Cubas, celeiro de poetas, onde nasceu José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, e, também, Eduardo Dias Coelho, idealizador do ELISMO é uma cidade praiana, ligada a Portugal, não somente pelas águas do Atlântico, mas também, e, principalmente, pela língua, pelos usos e costumes, pela amizade e pela fraternidade.

Ao lado de Santos, situa-se São Vicente, a “Cellula Mater da Nacionalidade” brasileira, onde em 1532 ancoraram as caravelas de Martim Afonso de Souza. As duas cidades completaram um cenário perfeito, para depois de quatrocentos e vinte sete anos do descobrimento do Brasil, Eduardo Dias Coelho, idealizador do ELISMO fundar o Elos Clube, juntamente com seus companheiros, Manuel Antônio Marçal, Hermes Barsotti, José de Souza, Mário de Almeida Nunes, Manuel Antônio Gomes, Joaquim da Rocha Brittes, Arimondi Falconi, Aires Pedro dos Santos, Adelino Miguéis Picato, Waldemar da Cruz, Luiz Espinha e Henrique Martins.

Temos ainda entre nós, quatro companheiros fundadores: Manuel Antônio Marçal (o primeiro presidente), Manuel António Gomes, Henrique Martins e Joaquim da Rocha Brittes.

Portanto, o ELISMO aflorou nas duas cidades, no Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1959, com os mesmos anseios que levaram os pensadores do século XIV a conhecerem a antiguidade, com todas as manifestações artísticas que correspondem ao HUMANISMO com sua tendência cultural.

O ELISMO visa a difundir e defender a pureza da língua portuguesa; promover a integração dos países que a falam; defender as artes, a cultura e as tradições lusíadas, lutando pela integração do ser humano.

Em princípio, nasceu o Elos Clube de Santos, que passou a ser conhecido como a Cellula Mater do ELISMO MUNDIAL, porque dele nasceram os Elos Clubes de: São Paulo, Curitiba, Belo Horizonte e o primeiro Elos fora do Brasil, o Elos Clube de Lisboa.

Outros Clubes foram surgindo no Brasil e no Exterior, ampliando-se a corrente em todo o mundo. Este Elos que, no passado 8 de agosto deste ano de 2005, completou 46 anos de existência. Este Elos que, com apenas dois anos de vida, sediou a primeira Convenção Nacional, e, ao longo de sua trajetória, já participou de inúmeras Convenções Internacionais.

Em pouco tempo, o ELISMO espalhou-se pelo Brasil, Portugal, Ásia e África, levando sua filosofia aos quatro cantos do mundo.

Não há como negar que a filosofia elista aplica-se perfeitamente à forma de ser e estar de brasileiros e portugueses, porque são duas nações irmãs, que se assemelham.

Em dezembro de 1964, durante o I Congresso das Comunidades Portuguesas no Mundo, um congressista da Comunidade Lusíada da Cidade de Santos afirmou: “É conhecida a facilidade que o emigrante português tem para se integrar nos meios sociais onde se radica. O português não reage à assimilação desses meios, como acontece com outros povos, antes procura identificar-se com eles e adotar-lhes os usos e costumes. (...)”

No Brasil é assim: O português chega aqui, instala-se, mistura-se, desenvolve e consolida rapidamente relações afetuosas com portugueses e brasileiros, indistintamente, cria interesses e laços de família, não tardando a integrar-se completamente à vida brasileira. Influi e recebe influências. É exemplo de trabalho e de dedicação à terra que o acolheu, sem deixar de ser fiel à Pátria de origem. É respeitado e estimado por tudo isso.

Por outro lado, o brasileiro corresponde inteiramente aos desejos de aproximação do emigrante português, facilitando-lhe extraordinariamente a integração. Ajuda-o, abre-lhe de par em par as portas de sua casa, associa-se com ele nos empreendimentos, não reage contra os seus costumes, antes adota muitos deles, que são, assim, incorporados ao patrimônio cultural brasileiro.

Dessa forma se desenvolve um processo natural de permuta de idéias, sentimentos, costumes e interesses, que distribui mutuamente os benefícios entre o integrado e o integrante.(...).

Na primeira Convenção do Elos Clube da Comunidade Lusíada, realizada em Santos, entre 4 e 8 de agosto de 1962, foi adotada a expressão “Comunidade Lusíada” em substituição da usada até então por aquela entidade – “Comunidade Luso-Brasileira”. Foi uma idéia feliz, que veio dar nova dimensão aos conceitos de Comunidade Portuguesa e Comunidade Luso-Brasileira, fundindo-os em um único significado, extensivo a outras partes do mundo onde se fale ou se adote a língua portuguesa.

Graças a essa facilidade de entrosamento, o ELISMO se expandiu fora do Brasil e em pouco espaço de tempo, de 1959 a 1985, vinte e seis anos, portanto, foi possível a implantação de várias unidades elistas, em diversas partes do mundo, confirmando o que Eduardo Dias Coelho preconizou na Carta de Princípios: “ O ELISMO é um movimento cultural de congregação de valores humanos dispostos a defender e promover a boa compreensão entre os povos de TODO O MUNDO.”

Depois da inauguração do Elos Clube de Lisboa, em janeiro de 1963, surgiram outras unidades criadas por Portugal:

1968 – Elos Clube da Beira – Moçambique;

1969 – Elos Clube de Luanda;

1971 – Elos Clube de Johanesburg; Elos Clube de Lourenço Marques – Moçambique; e Elos Clube de Moçâmedes – Angola;

1973 – Elos Clube do Porto e Elos Clube de Estarreja;

1981 – Elos Clube de Oeiras;

1983 – Elos Clube de Faro e Elos Clube de Trofa (Aveiro);

1984 – Elos Clube de Kinshasa – (Zaire);

1985 – Elos Clube de Tavira e Elos Clube de Olhão.


Quatro anos depois, em 1989, nasce o Elos Clube de Macau;

1991, o Elos Clube de Coimbra;

1992, o Elos Clube de Figueira da Foz; e

2001, fundam-se o Elos Clube de Dili e o Elos Clube de Moçambique, na cidade da Beira.

Braga, Fafe, Portimão, Santarém, Goa e San Diego tiveram também os seus Elos Clubes, no entanto, não temos registro algum dessas seis unidades.

Enquanto a filosofia elista difundia-se em todo o mundo, no Brasil alargava-se de Norte a Sul, de Leste a Oeste, de forma prazerosa.

Hoje, não mais temos todas essas unidades em perfeita atividade, restando, apenas, aquelas cujos dirigentes valorizam verdadeiramente a nossa língua, as nossas tradições, os nossos usos e costumes, o culto ao lar, o respeito à família, a veneração à Pátria, o amor ao próximo, a dedicação ao trabalho, a honradez, a irrevogável idoneidade moral e todos os preceitos constantes de nossa Carta de Princípios.

A paralisação de algumas unidades não nos intimida. Pelo contrário, nos dá mais ânimo, mais força para lutar pelos nossos ideais.

Khalil Gibran disse: “Somos as sementes de uma planta tenaz, e é quando amadurecemos e atingimos a nossa plenitude de coração que o vento se apodera de nós e nos espalha.”

O Movimento Elista tem apenas 46 anos de existência, portanto, ainda bastante jovem e é natural que algumas sementes não germinem, como que, a “separar o joio do trigo”.

Portanto, Nobres Companheiros Convencionais, a resposta para o tema da Convenção ELISMO – PONTE DE ESPERANÇA E AFIRMAÇÃO DE HUMANISMO NO ESPAÇO LUSÍADA, a nosso ver, está explícita nas palavras de Eduardo Dias Coelho que previu e preconizou:


O Elismo é o grande instrumento para esse fim”.

É preciso que cada elista tenha consciência disso.

É preciso que cada um de nós contribua com sua parcela, por mais modesta que ela seja, para a construção de um mundo melhor!”

Assim tem que ser, porque o mundo é obra de todos nós”.(...).


Outubro, Convenção 2005.

MARIA ARAÚJO BARROS DE SÁ E SILVA

Presidente Internacional 2003/2005.